porto unique stories XV – Gustavo Carona, a doctor without borders

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porto unique stories XV – Gustavo Carona, a doctor without borders

 

Gustavo Carona

PORTO UNIQUE STORIES
Gustavo Carona

PT
pessoas do Porto, histórias do Porto, pessoas e histórias que fazem o Porto ser o Porto.

Gustavo Carona é médico anestesista e voluntário dos Médicos Sem Fronteiras, a maior ONG independente na área da saúde, atuando em locais do planeta a necessitar de apoio médico emergente. Em Junho próximo, Gustavo partirá de novo em missão, desta vez para Mosul, no Iraque, para onde levará consigo o livro “1001 cartas para Mossul”, um livro de sua iniciativa que compila cartas de todos os que quiseram escrever mensagens de esperança aos habitantes de um país em guerra. o livro será apresentado amanhã, sábado 27 de Maio, publicamente, no Hospital de Pedro Hispano.

o Gustavo é para mim uma inspiração, e sei que o é para muitas outras pessoas também, pelo que não quis perder a oportunidade de falar com ele antes da sua nova missão fora do País.
a entrevista e as fotografias foram feitas na Quinta de Monserrate, um pequeno oásis no meio de Matosinhos, quinta que já pertenceu à família de Gustavo, agora sua, e que para além de ser onde Gustavo mora, alberga ainda um Ginásio e um Club de Padel e de Ténis, do qual Gustavo é sócio.

EN
Gustavo Carona is a doctor from Porto, anestheologist and a volunteer doctor at Doctors Without Borders, the biggest independent NGO in the health area, acting in the emerging needing places of the planet. Next June, Gustavo will go again on mission, this time to Mosul in Iraq, to where he will bring a book – 1001 letters to Mossul – a book of his initiative containing letters from everyone who wanted to write a message of hope to people living in a country in war. the book will be presented tomorrow,27th May,  at Pedro Hispano Hospital.

Gustavo is for me an inspiration, so I did not want to loose the opportunity to talk with him before he goes on mission again.
The interview and pictures were made at Quinta de Monserrate, a small oasis within Matosinhos, which once belonged to Gustavo’s family and is now his own and where he lives, but which also hosts a fitness Club and a Paddle and Tenis Club, of which Gustavo is owner and partner.

The Interview

Como voluntário dos Médicos Sem Fronteitas Gustavo já passou por Moçambique, Congo, Paquistão e Afeganistão, tendo a sua última missão sido passada na Síria, em Idlib, perto de Alepo e bem na linha da frente de conflito. (Dezembro 2013).

I – O que te levou a fazer parte dos Médicos Sem Fronteiras? Surgiu depois de seres efectivamente médico, ou já era algo que vinha de trás?

Há um momento de “epifania” na minha primeira ida a África (Moçambique), já eu era médico há 3 anos (em 2007) e que me levou a reflexões e emoções das quais eu quis correr atrás.
Depois há todo um conjunto de livros, filmes e reportagens que me emocionam e inspiram de tal forma, e pelos quais eu juro a mim mesmo manter-me fiel às lágrimas que me correm nos olhos, tentando dar ouvidos a um jovem idealista que outrora fui. Vivemos num país privilegiado, onde médicos como eu são “mais um” e ainda bem. Mas nos sítios onde tenho trabalhado com os Médicos Sem Fronteiras (MSF), a minha presença pode significar centenas de vidas….., e eu nunca poderei ficar indiferente a isso.

II – Desde o início da tua candidatura aos MSF que a ideia era ires para zonas de conflito, ou o que te atraía era mais a ideia de viajar para países distantes e com culturas diferentes, a ideia de viajar e de estar longe?

A minha ideia era ir para onde fosse mais preciso, e tento sempre manter essa honestidade intelectual, cada vez que aceito uma missão. Sou apenas um “peça” que faz uma máquina funcionar, na qual acredito ser a grande solução para a luta por um mundo melhor. E as zonas de conflicto são sem margem para dúvida as maiores e mais continuadas catástrofes humanitárias.

Depois da minha primeira missão, já me iludi e já me desiludi muito comigo próprio, e a solução passou por eu ser o mais honesto possível na minha auto-crítica. Parto em missão porque gosto de ser médico, porque acredito que se não for parte da solução, serei parte do problema… mas também porque adoro viajar, compreender o mundo com os meus olhos, nomeadamente alguns dos acontecimentos mais relevantes da nossa história contemporânea…. e gosto também da pessoa que encontro em mim quando estou “lá”…. acho que é a mais bonita das minhas facetas e por isso tento alimentá-la… também já senti que estava a fugir… e também gosto de estar longe, principalmente porque é maravilhoso voltar a casa 😉

III – Eu, que te conheço pessoalmente, sei que o teu lado humanitário e interesse em ajudar os outros está presente mesmo quando estás por cá – (conheci o Gustavo através do Movimento Ajuda, um Movimento criado por pessoas do Porto, com o intuito de ajudar famílias carenciadas com crianças a cargo, do qual o Gustavo foi durante uns tempos o presidente, sempre motivando todos os que com ele colaboravam e onde mais uma vez fez sobressair o seu lado bom e humanitário) – mas o que podes responder a quem acha que para ajudar e prestar serviço humanitário não é necessário ir para fora, que há tanta gente por perto a necessitar de cuidados médicos, e que o ideal seria ajudar quem precisa por cá primeiro???

Compreendo bem essa pergunta. Nós somos feitos de emoções, e estas agarram-nos ao que está mais próximo dos nossos sentidos. No entanto, se, e repito SE, acreditarmos que todas as vidas têm o mesmo valor, então a dimensão do nosso esforço tem de ser proporcional à dimensão do problema… A preocupação social, não tem de ser a nossa vida, mas tem de fazer parte da nossa vida… é um dever cívico, e eu sou da opinião que devemos ter uma actuação de proximidade, onde as nossas mãos chegam e simultaneamente uma compreensão do que se passa no planeta Terra.

IV- Qual o lugar onde sentiste mais medo?

No Porto. Normalmente só tenho medo antes de partir, quando lá estou sinto-me bem, tranquilo.
A antevisão de quase todos os sítios onde estive despertaram em mim preocupações fortíssimas em alguns momentos, mas sem dúvida que o sítio mais perigoso onde já estive foi na Síria.

V – O medo é adrenalina? Agora que vais para lugares que sabes que são efectivamente perigosos e onde se põe a própria vida em causa não te faz recuar? Ou é precisamente o contrário, o que te move é essa adrenalina, esse medo?

O medo é estúpido, limitador e castrador… É sustentado essencialmente no que desconhecemos, e na construção errada que fazemos da realidade que nos faz acreditar, que estão a cair bombas em todo o lado a todo o momento… Sou um homem da ciência.. , e para gerir probabilidades acredito na estatística… Viver em Kabul é menos perigoso (em termos de risco de vida) do que em grandes cidades europeias ou do que nos EUA, e no entanto o medo da maioria das pessoas seria infinitamente maior se antevissem uma ida a Kabul (e o meu também foi, mas passou rápido).
Eu gosto de adrenalina, sempre gostei, mas acima de tudo, essa adrenalina/medo de que falas é proporcional à catástrofe humanitária…. eu tento manter o foco nas minhas motivações que superam os meus medos.

VI – O que pensas quando estás nessas situações de medo?

Essa pergunta leva-me para as inúmeras vezes em que na Síria nos refugiávamos nos bunkers, quando estavámos a ser sobrevoados por aviões ou helicópteros com bombardeamentos prováveis, sem saber onde…. ou quando os morteiros começavam a deixar cair bombas a uma proximidade que já faziam estrondosamente tremer o chão…. Tenho muito amor à vida, e não me considero particularmente corajoso, mas ainda assim ver-me rodeado de gente com percursos e formas de viver a vida inspiradoras, e de uma população que precisava de mim… nessa altura, o que penso, é que estou no sítio certo.

VII – Agora a tua ida para Mosul e o livro “1001 cartas para Mossul” que vais levar contigo – um livro que compila textos e ilustrações de quem quisesse participar – como surgiu essa ideia ?

O grande problema, na minha humilde opinião, continua a ser uma enorme separação de mundos ou de povos… Continuamos a achar/sentir, que as guerras são algo que passa no telejornal e que dá motivo de conversa no dia a seguir….
A vida da esmagadora maioria da população mundial é para “nós” estatística… E eu gostava que todos vissem aquilo que eu e tantos outros vemos quando testemunhamos algumas destas tristes realidades: vemos pessoas IGUAIS a nós.

Cada vez que parto em missão, acho que sinto qualquer coisa, como os atletas olímpicos devem sentir….
Sinto que represento a minha familia, os meus amigos, todos os que me formaram como pessoa e como médico, e todos os que acreditam no verdadeiro propósito de cada uma destas missões: deixar sementes de esperança! E desta vez, fui “invadido” com a ideia de materializar esse sentimento, de que levo muita gente na minha mochila, e de que esta população como tantas outras precisam que olhemos para eles como seres humanos!

VIII – O que é regressar ao Porto, a Portugal, depois de teres estado nesses países em guerra? Qual a primeira vontade quando aterras no Porto? 

É bom, é lindo, é maravilhoso… Gosto tanto de ir, como de voltar. Tento estar do lado certo do avião, colo-me à janela e ouço a “Pronuncia do Norte” dos GNR enquanto me delicio e reconfirmo que o Porto é a cidade mais bonita do mundo.
e invariavelmente desfaço-me em lágrimas…. Por tanta coisa junta que eu nem sei bem…. Pela miséria que vi, pelas vidas que fugiram nas minhas mãos, pela gente que ainda não é vista como gente , inclusive por tanta gente que eu adoro…. Mas também pelas pessoas e pelos lugares que eu amo, pela agradável sensação de missão cumprida, e por mais uma vez ter estado em contacto com o meu lado mais bonito….

Abraçar a minha mãe, não só é um ritual, como é tudo o que eu mais quero quando vejo as portas do aeroporto a darem-me passagem.

(Obrigada Gustavo.)

EN
(* english version of the interview soon)

Porto Unique Stories XV  –
Gustavo Carona
http://fotoscomhistorias.blogspot.pt

Apresentação Livro 1001 cartas para Mosul / Presentation Book 1001 letter to Mosul
Hospital de Pedro Hispano
27th May – 17:30h

1001cartasparamosul

 

 

 

By | 2017-11-02T19:17:27+00:00 May 25th, 2017|interviews, porto unique stories|1 Comment

One Comment

  1. Romeu 27/05/2017 at 17:21 - Reply

    Bom moço!

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